meditações

Abro-me a acolher o mundo. À medida que vou aceitando as circunstâncias que aparentam ser exteriores a mim, abro espaço no meu peito para aceitar-me a mim mesmo, aceitar tudo o que crio, tudo o que gero na minha vida. E o ar continua a fluir…e o controlo cada vez mais diluído nesta viagem que percorro, aberta e receptiva ao meu centro, ao âmago da minha existência.
À medida que vou recolhendo os meus sentidos, os estímulos externos começam a passar despercebidos, aumento o silêncio, o vazio, a escuridão. Aceito este primeiro passo sem qualquer temor. É uma porta que se abre para uma sala aparentemente escura e vazia…abro a porta e entro. No seu interior pareço isolada do que está lá fora, do que deixo para trás, no seu interior sinto que todas as experiências da minha vida ficaram ali e eu estou leve, aberto e disponível a reconhecer o que existe neste espaço interno. É como uma câmara estéril, limpa, vazia de contacto humano, limpa, vazia de dor, de sofrimento, limpa, vazia de padrões, de pensamentos, de ideias, de objectos e de expectativas.
Todo esse espaço aparentemente vazio tem estado a aguardar pela tua presença, tem estado a aguardar pela tua atenção. Agora que despes as roupas pesadas pelo tempo, pela vida passada estás apto a entrar, estás apto a sentir-te acolhido no centro da tua casa, no teu lar. E no teu lar uma chuva brilhante vai lavando as impurezas incrustadas na tua pele, uma água cristalina de um branco tão límpido lava agora a tua alma, lava agora tudo aquilo que é desnecessário a este espaço onde te encontras. Abre mão de tudo o que não queres, cada experiência do passado, cada desejo para o futuro é totalmente inútil, nesta sala estéril o tempo e o espaço simplesmente são nulos, inexistentes. Então não importa o que penses, o que queres, o que projectes, apenas o que vais sentindo mais dentro, mais fundo à medida que lavas camadas, depois da roupa despida…E o espaço vazio aparentemente escuro vai-se enchendo de uma luminosidade agradável, reconfortante. Sente como esta luz que agora te chega ilumina toda esta casa onde te encontras. No entanto não há paredes, não há tecto, não há chão. Estás suspensa num espaço imenso, infinito. Regressando à tua essência, regressas ao espaço maior, ao teu LAR. E aí estás bem próximo do Sol, e aí recebes a luz maior. Explosões de luz laranja alegram o teu ser, sente como esta cor se entranha no teu interior, nutrindo, alimentando, criando, inovando aquilo que és. É Momento de renovação, momento de construir uma nova estrutura emocional. Permite-te vibrar nesta cor laranja que envolve todo o teu ser, sente como te aquece, como te abraça como te acolhe. Sente como o teu centro, o centro interno alojado no centro deste lar que é a tua casa, vibra em total sintonia com o Sol Maior, construtor da existência. Não faz mal se a tua mente continua a pensar porque os raios solares que tudo amam, envolvem cada um dos teus pensamentos, acalentam cada uma das tuas emoções. O laranja dá vida à própria vida que vibra em ti.
Prepara o teu seio abrindo-te à força maior. Vibra tão intensamente que o calor que tu própria geras te aproxima do Sol. Agora vê e sente como és uma partícula deste sol imenso. Deixa que a luz maior te envolva, acolha e de novo te abrace no sentido da unidade. Vibrando e flutuando nesta bola imensa suspensa, a força da vida, a força do Amor.
Este fogo no qual te fundes transforma cada pensamento, pacifica cada emoção porque o fogo maior ama tudo aquilo que és. Sente o amor crescendo em ti. Quanto mais te aceito mais amor se gera no teu centro, na tua partícula divina. Não tem mal se sentes que erraste ao descurar este espaço no teu interior, é sempre momento de começar, é sempre momento de regressar a casa. E cada vez que regressas parece a primeira vez, cada vez que entras na tua própria casa sentes este amor de uma forma nova, diferente, cada vez que entras enches-te de harmonia, equilíbrio, aí te alimentas para sair e ser humano, aí entras para nutrir-te e preparar-te para a vida lá fora. És sempre Bem-vindo, és sempre amado.
Guarda uns momentos em ti para acreditar neste amor, reserva uns momentos de silêncio para integrar este amor, envolvendo tudo aquilo que és, tudo aquilo que pensas, tudo aquilo que sentes. Tudo se funde na vibração amorosa.
Sente a magia transformadora do amor. Como não há nada que perturbe ou afecte esta sensação maior, como agora que aqui estás, sabes que podes voltar a cada instante, apenas buscando o caminho que já conheces, penetrando dentro de ti, dentro de ti está a porta. E ainda que queiras aqui ficar, sabes que este lugar é sempre teu, a casa que te acolhe. E ainda assim sabes que o teu caminho humano aguarda. Permites-te uma vez mais, infinitas vezes, ser esta partícula ínfima que se despega do sol maior, ganhando forma humana, corpo, estrutura para caminhar na terra. Recordas no entanto que essa partícula que és está sempre no teu interior, sempre conectada a esta força maior, a qual te guia, te alimenta, te afaga nos sonhos, te chama à verdade quando esqueces, te recorda a inocência quando julgas saber tudo, te abraça quando sofres, te levanta quando cais. Esse é o caminho, é aí que cresces, passo a passo. Recorda então que a cada queda há uma mão que te puxa e ajuda, recorda então que em ti há um lugar onde habita o amor maior e que a porta está no teu peito, no teu centro interno.
 Sente agora vontade de vir à vida porque estás plena deste amor, preenchida, limpa liberta renovada. Permite-te regressar lentamente, permite-te preparar para uma noite de sono profundo onde te manterás conectada a esta força a este impulso criador, regenerando o teu corpo, afagando a tua alma. E então é de novo a respiração que te traz aqui, desde o espaço, do tempo sem tempo ao lugar do concreto onde manifestas a existência. Através da respiração vais sentindo vontade de integrar o corpo….
13 de Março, Partilha do Ser




Dentro do espaço que ilumino agora em mim permito-me ver todas as vias para a realização do meu ser, todos os caminhos, todas as hipóteses. Desde a escuridão onde me encontro observando tudo o que fui, tudo o que serei, tudo o que não quis ser e tudo aquilo que desejo alcançar. Num instante em que me abro à consciência maior, abro-me a todas as possibilidades da existência. E ainda que a minha mente pareça perder-se por entre tantos caminhos distintos vou deixar-me seguir observando sentindo onde me levam…alguns trazem-me alegrias, outros tristezas, em alguns encontro a plenitude e noutros a aparente ausência desta. Ainda assim vou respirando, ainda assim permito-me embrenhar na diversidade da minha vida, na diversidade da existência. Cada vez que dou um passo experimentando uma via distinta, vou sentindo o que me move, sentindo o que me chama. Em cada caminho sinto o meu coração bater, seja um recordado ou um outro desejado vou sentir como o coração bate de igual modo. Sentir como à medida que vou ao meu interior deixa de ser a respiração o elo e apuro a sensibilidade para reconhecer no coração a estrutura que me move.
 À medida que vou experimentando a terra, um trilho e outro, vou sentindo como este coração se enche, vou percebendo como a qualidade da experiência vai perdendo importância quando me centro no peito. Quando me centro no peito deixo de atribuir qualidade à experiencia: não há bom ou mau, agradável ou desagradável, apenas a sensação de estar, de existir. Quanto mais me permito sentir o que é estar, existir sem atribuir um significado na dualidade, mais cheio me sinto, maior é o  brilho. Quanto mais estou, mais sinto que o passado se funde ao futuro, que aquilo que mais desejo se fundo com aquilo que repudio. Observo como os caminhos tão díspares se fundem num único ponto, e desde o ponto de partida ao ponto de chegada, apenas o coração se mantém, mais e mais sensível, mais e mais pleno.
Desde esta perspectiva ampliada coloco a intenção de transformar a visão da vida. Toda a terra, cada grão da jornada que fiz até agora se reúne com toda a terra, cada grão daquilo que me falta caminhar. Transformo cada memória, cada desejo num grão de areia. E neste instante, aqui centrado no peito, toda a vida percorrida, toda a vida por percorrer se transforma num enorme Deserto.
Sinto-me assim, simplesmente rodeado de areia dourada, sinto-me assim simplesmente rodeado de existência no seu estado mais pleno e o coração abençoando todo esse sólo, cada uma dessas dunas…reconheço a grandiosidade da existência ao ver como tudo é mutável e efémero, rodeado de dunas que instantaneamente se transformam, moldadas na dança do vento. Como aqui na essência em que me encontro reconheço a inutilidade da escolha, do caminho, não há caminho que perdure, tudo conflui num mesmo palco e aí estou desfrutando da dança, em que o vento é soprado por mim mesmo, reconheço agora como sou eu que sopro o caminho, sou eu que transformo as dunas do deserto.
Abdico da escolha menor para tomar a escolha maior, abro mão dos caminhos definidos para abranger todas as vias, abarcar toda a existência e aí sim, sinto o meu coração pleno. Como o sol que resplandece dourando cada grão desta imensidão, é este mesmo brilho que eu próprio emano, como o vento que parece desafiar a minha persistência em manter um caminho direito, é o mesmo sopro que move a minha existência, como aquilo que eu sou desde a origem me revela agora a insignificância de cada passo, a grandiosidade da aceitação. Aceitar que tudo é efémero, aceitar a dança do vento, o sopro sagrado, aceitar as dunas da vida, abrir o coração ao sentimento maior, abrir-me neste momento à compaixão por mim mesmo.

Deixo que o sol resplandeça o meu rosto assim como faz brilhar cada grão da areia, ilumina o meu interior.

Como é inútil olhar para o passado quando as pegadas de imediato se apagam, não há como olhar para trás, não importa olhar para a frente, tudo está em constante mudança, tudo está em constante transformação. Aceito, então, o meu lugar exacto neste caminho. Mantenho-me eu imutável, centrado no peito, ligado à força maior que tudo move em mim e em meu redor. O ponto de partida e o ponto de chegada fundem-se no lugar exacto em que me encontro, no lugar exacto em que me encontro Espírito, alma e corpo, e aí mergulho dourando todas as minhas veias, despindo-me de tudo o resto para continuar a aceitação. Ao aceitar os movimentos espontâneos da vida, entro na dança, no ritmo, fundo-me no fluxo da existência e toda a vida corre por si. Como ao aceitar os movimentos naturais da existência integro o propósito maior de comungar com a própria vida, acolhendo em mim cada vale, cada montanha, cada desafio.

Como agora sou capaz de olhar para o meu peito e senti-lo cheio, tão rico e grandioso. Ao dissolver os entraves, ao aceitar a via comum a todos instalo em mim de novo o sentido da Unidade, o sentido do Amor. E agora é o coração que pede a vida e recorda a respiração!

Através da respiração regresso com gosto ao espaço e ao tempo em que me encontro nesta fase em que existo.


                                                                                                                             22 de Fevereiro, 2012



Reconheço na respiração a força que trespassa as várias dimensões daquilo que eu sou, desde o corpo fisico aos planos subtis. Através do fluxo respiratorio vou encontrando o meu centro interno, encontrando a minha capacidade de estar realmente ciente do que sou. 
Deixo em 1º lugar que a respiração inunde o meu corpo. Percorrendo o corpo imóvel, concedendo mais tempo àquelas partes que manifestam ainda alguma agitação motivada pelo dia que agora termina. Coloco a intenção de acalmá-las. Transmito a essas partes de mim esta mensagem de acolhimento, de aceitação. Retomando as rédeas sobre mim mesmo. Estou habituado a tomar as rédeas sobre o ponto de vista mental, vou permitir-me através da meditação tomar as rédeas sobre o ponto de vista mais abrangente, sobre o Eu Sou, desde a minha semente essencial, aí sim encontro o ponto de focagem. Deixo que o ar siga e como não quero que seja a mente a controlar, permito que o ar flua sem interferir, limito-me a observar, limito-me a sentir. É através da respiração, através do sentir que encontro esse centro, vou então entregar o corpo, esteja deitado ou sentado, abro mão do controlo sobre os músculos, sobre o esqueleto, sobre os órgãos. Reconheço a grandiosidade da natureza humana como tudo se processa à medida justa das minhas necessidades físicas, quando não interfiro com a mente. Pelo contrário, quando a mente interfere o meu corpo manifesta-se. Aproveito então este momento em que quero expandir a minha consciência para abarcar a totalidade, a sabedoria que trago para aceitar como a natureza humana é tão preciosa que não há qualquer necessidade de disperdiçar energia, atenção com esta tentativa de dar um outro rumo às células do meu corpo. Aceito e sinto como se adaptam espontaneamente. E neste momento posso então constactar como o meu corpo se abre a acolher um novo conforto, um novo bem-estar, simplesmente porque não interfiro. Estou apto a ascender no caminho, assim como aceito a espontaneidade de cada célula do corpo vou aceitar a espontaneidade de todos os processos mentais, assim como me distanciei da respiração e permiti que ela fluisse por si, vou distanciar-me da minha mente e permitir que as imagens discorram, fluindo um pensamento do passado, uma ansiedade pelo futuro, aceito como salto aqui e ali no tempo procurando ter tudo sobre controlo. Aceito essa minha necessidade mental e ao mesmo tempo que o faço observo como é tão inútil, despropositada - por mais que me esforce por ter tudo sobre controlo não há como arrumar a mente, não há como organizar o passado ou estruturar o futuro, surgem sempre mais e mais inquietações, mais e mais vontades, mais e mais desejos. Vejo como o controlo sobre a mente é desnecessário, passados estes instantes em que aceito e acolho cada pensamento que me surge sem querer condicioná-lo ou reprimi-lo. Aceito que cada pensamento está associado a uma emoção, aceito que cada emoção produz esta minha vontade de controlar, de gerir, de organizar. E assim parto para o plano emocional. Permito-me ver realmente como me sinto, permito-me ver realmente as emoções associadas às minhas criações mentais, às minhas imagens. Observo então como aquilo que queria controlar é completamente incontrolável porque não há como controlar o sentir, apenas sentir. Aceito o que sinto e ao fazê-lo reconheço quão efémero é cada sentimento, quão efémera é cada emoção que emerge e são as emoções que me levam à energia da Lua Cheia. É a aceitação que me permite observar a riqueza, a grandiosidade da natureza. Não só o corpo tem um ritmo e um fluxo natural como as emoções o têm se me permito observar. Observo como as emoções são tão efémeras, instantâneas e o pensamento que me leva agora à maior alegria é de imediato substituido por um outro que me leva à maior tristeza. E então vejo como oscilo constantemente. Aceito essa oscilação, aceito essa ondulação. Cada imagem, cada pensamento leva-me a um espaço no meu lago interno e sinto como o lago interno é formado por cada uma das gotas, cada uma das emoções. Acolho cada uma das emoções para aperceber-me da riqueza imensa que existe, de como os lagos são feitos de todos os sentimentos, como não há forma de criar um lago se quero controlar cada gota que o gera, como não há forma de conter as emoções perante tamanha riqueza. Sinto que ao acolhê-las permito por si o dissolver do turbilhão, ao reduzir a fricção entre uma gota e outra, entre um pensamento e outro posso serenar as minhas águas internas, posso realmente observar a riqueza do lago que existe em mim. Assim como o corpo agradece a ausência de controlo, também cada gota se regozija de sentir que não tem de estar em conflito com as demais. Reconheço como a ausência de conflito é a chave maior para a purificação do lago interno. Ao permitir-me cada emoção, ao serenar as águas quando cada gota abraça as restantes, envolvendo no amor tudo o que eu sou, tudo o que eu sinto, permito-me ver mais além, permito-me sentir mais além. Neste momento no qual a ondulação cessa consigo ver espelhado nas minhas águas todo o Universo, consigo ver espelhado nas minhas águas tudo o que é, tudo o que existe. Ao envolver-me assim, aceitando o meu processo, o meu tempo, o meu ritmo, encontro a abertura, a porta para sentir tudo, para vivenciar a experiência maior, o Amor.
Vejo o que se reflecte na superfície da água, ao mesmo tempo observo como as impurezas se depositam do fundo e alimentam o sólo, sinto como as emoções se transmutam dando lugar a novas criações manifestas na Terra. Neste momento envolvo não só o lago, não só a superfície espelhada mas igualmente a terra subjacente, os sedimentos que representam a estrutura humana do que eu sou, a estrutura onde assenta a minha alma, a estrutura onde o espírito se manifesta. E assim como me vejo inteiro, vejo o brilho imenso da lua, aceitando o seu ciclo, os seus momentos, os seus ritmos, como apenas periodicamente se mostra inteira, assim eu aceito que nem sempre me mostro inteiro a mim mesmo, nem sempre me vejo desta forma ampliada. Assim como a lua espelhada apenas se revela inteira periodicamente a ainda assim ali está sempre, noite após noite, todas as noites da minha vida, assim estou eu ainda que camuflado, escondido no turbilhão emocional, no controlo mental, no corpo agitado, ainda assim aí estou sempre, inteiro, genuino. Reconheço a verdade e envolvo-me no puro Amor espelhado em mim, desde o alto dos céus, desde a luz maior. Já não é a lua que se espelha na minha água, é o espírito que se espelha na minha alma, é a essência transbordante que tudo abarca que me envolve, que penetra cada célula do meu corpo dizendo-lhe tu és AMOR. E em cada célula do meu corpo eu sou a essência, eu sou a semente criadora. No silêncio integro este amor que sinto em mim, este amor que sinto por mim. Ao senti-lo em mim e por mim, sinto por tudo, sem excepção, porque sendo uma gota em cada uma das minhas emoções, tudo o que eu sou representa uma gota no oceano maior, e nele mergulho, e nele me envolvo, e nele cresço. Não importa se o turbilhão persiste porque decidi aceitá-lo e no mesmo instante a força maior do amor acolhe e reconheço a abrangência do lago, e do oceano, e eu estou em todos eles.
                                                                                                                   Lua Cheia, 7 de Fevereiro, 12



Através da noite, do silêncio crescente, a partir da inacção começo esta viagem. Vamos deixando que as poeiras assentem em cada expiração. Nesta mente elástica , ao inalar sinto onde me leva no dia que termina, na vida que corre e ao expirar retomo a outra ponta do elástico, o aqui e agora. Começo por aceitar com naturalidade estes movimentos que se sucedem a um ritmo rápido, veloz. Estou aqui, estou no passado, no presente, no futuro, no presente e à medida que me vou focando nesse instante presente quando retomo ao aqui, sinto os pós do passado e do futuro assentarem nesta terra, neste terreno que é a minha alma.

Vejo a alma como um amplo terreno onde algumas plantas crescem e outro espaço aguarda o germinar das sementes. Algumas plantas que crescem levam-me ao passado, o terreno aparentemente vazio conduz-me ao futuro. O presente é a terra, a alma disponível para o instalar do espírito.

Enquanto aqui estou sentindo o ritmo do próprio corpo, que se faz pela respiração, sou capaz de apreciar todas as plantas crescidas, aceitar aquelas que murchas terminaram a sua função e desfruto do prazer que me dá observar igualmente o terreno, grão por grão de terra que nutro, alimento, com o amor que aplico para que aí cresçam novas plantas, novas flores desabrochem. Ao ligar-me a esta imagem em que a terra sou eu, eu sou um terreno imenso, abro espaço no meu interior para abraçar passado, presente e futuro. Tudo num só solo, tudo num só instante.

Vejo quantos ciclos já passaram por estas terras desde o momento em que semeio ao tempo em que colho, tudo o que percorreu este campo, todos os frutos saboreados, a riqueza desta alma. E ao situar-me nesta riqueza que existe já em mim, liberto a ansiedade pelos frutos que virão e aproveito este momento em que aqui estou olhando a terra mexida, apreciando cada um dos grãos, emanando todo o amor desde a minha fonte maior acaricio o solo para aceitar que é momento de aguardar, é momento de esperar, momento de recolher na terra, no centro.

E este mesmo coração que, grande, aceita a pausa, apela ao movimento, ao mesmo tempo se sente protegido, acolhido na terra, suplica por asas para voar no céu azul. Aceito essa vontade. Aceito essa vontade de querer ir mais além, toda a força que me impele à mudança é salutar. Aceito essa vontade de crescer, subir aos céus, olhar-me assim do alto e ver-me inteiro. O que me diz o meu espírito agora é: alma terrena, aí tu já és plena, aí já és inteira. Abre-te à perspectiva maior, reconhece a riqueza infinita que reside no chão que pisas, no chão onde crias todas as plantas com o amor do espírito. E ao escutares estas palavras sentes como a tua divindade desce, acaricia a alma na terra, caminhando passo a passo, tocando cada grão da tua terra, transformando-o em puro amor, este solo, desde sempre sagrado. Sente essa carícia na tua pele, sente essa carícia no teu coração. Um carícia interminável que penetra todo o teu corpo, toca em cada uma das tuas células, enriquece cada uma das partículas que compõem o terreno lavrado, preparado. Sente como a tua divindade espalha sementes de amor, ao assentares a poeira da mente, abres-te agora a receber o pó das estrelas, uma chuva dourada que cai sobre o teu chão, um manto de luz que desce sobre a tua pele, chamando-te ao sagrado, chamando-te à verdade.
E esse amor tão belo que experiencias agora que te vês unida, alma e espírito fundidos num só, tomas consciência da vida plena, tomas consciência de que não há mais barreiras que te separam daquilo que és: puro amor. Não há passado ou futuro, não há terreno ou celeste, tudo um só amor. Este manto dourado que cobre o teu corpo penetra a tua pele, preenche as tuas veias, acaricia o teu coração e funde-se aí na energia amorosa que cresce no teu seio, no teu centro. Essa é a experiencia do amor. Essa é a verdade. Aí sim, meditas, aí sim encontras a consciência suprema, no amor que expandes desde o coração. E aqui estas, tu és o solo tu és o céu, não há mais por que buscar quando encontras o ponto de confluência de toda a existência. O ponto de confluência daquilo que és. Desde a diversidade, retomas a unidade.
Sente o amor que cresce desde a luz dourada, como não só tu recebes tamanho amor, porque este é incontrolável e ainda que o queiras conter agarrar, à medida que o geres ele espalha-se por toda a tua vida, tocando em cada uma das almas que tocam a tua, tocando em cada uma das almas que tocam o teu percurso, a tua terra. E quanto mais abres, mais entregas, maior é o sentido da compaixão, sente agora em ti o verdadeiro sentido de estar em amor. Como te amas, amando os outros, como adoras o céu abraçando a terra, como lavas as lágrimas desde a chuva dourada, toda a dor é abraçada, toda a dor, superada. Tudo se transforma em amor. Sente no teu peito. E no teu peito ao crescer a compaixão, a semente única inteira, a essência da vida, simplesmente se abre espalhando pela terra da tua alma, partícula a partícula, o amor agora semeado, o amor agora instalando para que não mais divides, para que todos os passos que dês desde agora sejam passos de amor, conscientes do sagrado que habita em ti, do divino que tu és. É tão bela a experiência do espírito quando toca a terra, é tão bela a experiência do espírito quando sente o conforto da alma humana que o acolhe de braços estendidos, aceitando a sua pequenez, entregando-se à força maior, estendendo os braços como um filho os estende à sua mãe. Sente como a deusa te abraça agora, te envolve no seu colo dizendo tu és divino, tu és puro amor. Entrega-te ao amor que és e nele medita, e nele cresce.
Não há espaço para a dúvida ou para a incerteza, tu és a terra, as raízes, o tronco, a copa, tu és o céu. O teu coração dourado assume o sagrado, assume o amor, acolhe-o esta noite.
25 Janeiro 2012


Neste momento de silêncio vou permitir-me escutar o meu corpo, o que me pede a minha alma, neste momento em que aqui estou. Cada um por si, sentindo que partes do corpo chamam, perguntando, questionando o porquê. Porque me chamam os pés ou a cabeça, a barriga ou o peito, cada um no seu próprio corpo, cada um nas suas próprias causas permitindo-se um escuta activa, uma escuta consciente. Sinto o ar que entra percorrer o corpo ao encontro dessas zonas de tensão, de conflito eminente e tantas vezes silenciado. Começo para despertar a luz por focar-me na escuridão que habita este interior. Levo o ar inalado às zonas de conflito, levo a chama, a luz, o clarão da Lua. E com o ar expirado sereno-me porque ao olhar para o meu próprio mau estar aprendo a dissolvê-lo, ao olhar para a batalha interior aprendo a baixar as armas e encontro a paz, conhecendo isto deixo-me então mergulhar mais fundo, mais dentro, na dor, no desconforto, na batalha travada em silencio dentro do meu corpo.

E como cada um trava as suas próprias guerras, cada um tem a sua própria experiência.

E cada um na sua própria experiência permite-se viajar pelos meandros densos da sua vida actual, é uma purga, uma limpeza consciente, propositada.

Abro-me a ver-me assim despido, sem máscara, abro a ver-me assim e ao olhar-me desta forma tão frágil, encontro a inocência reprimida, encontro a pureza esquecida. E então olho, vejo e sinto como cada guerra, cada batalha, cada tensão, aparentemente profunda, é tão efémera, transitória, é tão superficial.
Vou mais dentro e mais fundo na dor para constatar este facto e no próprio campo de batalha, onde o conflito se gera, existe um ínfimo ponto luminoso, um reflexo do sol central. E ao invés de me focar no turbilhão que envolve, que esconde esta luz persistente e brilhante volto-me para ela, e nela vejo o meu espelho divino. E ao ver-me assim espelhado nos confins da minha alma, onde o sofrimento acontece, uma enorme sensação de paz é de novo despoletada, enchendo o meu peito de um amor esquecido, chamando a mim a inocência que sempre aí esteve aguardando, assim como a luz. E agora que olho o ponto luminoso vejo como todos estes guerreiros internos, todas estas facetas bélicas que estavam travando a batalha interior simplesmente cessam o seu trabalho e retornam à luz brilhante, como a luz brilhante inunda cada partícula guerreira do que eu sou para apenas o amor emanar.
Onde outrora havia dor, mau estar, desconforto não há mais, onde outrora havia guerra e conflito, apenas paz e amor. E é neste corpo amoroso que eu vou espelhar a consciência divina. É neste corpo amoroso que eu vou alimentar a esperança de estar habitando uma vida sagrada. E aqui e Agora eu sou como a lua cheia que brilha no céu, reflectindo os raios do sol, emanando na escuridão o brilho do amor. Sinto toda a esfera brilhando envolvendo este corpo amoroso, quanto mais permito a inocência, quanto mais me abro à pureza, maior a capacidade de expandir, acolhendo no peito o amor puro das estrelas. Não há dor que persista à experiência amorosa, não conflito, guerra, confronto que sobreviva à experiência amorosa, sinto aqui e agora como sou capaz de trespassar cada barreira, cada resistência à experiência maior e neste instante vivenciar o todo, amor, sabedoria, entrega, luz. Eu sou tudo isso. E tudo aquilo com o qual me identifiquei ainda há instantes simplesmente dissolveu-se; tudo aquilo que trazia na minha mente carregada, inquieta simplesmente pacificado. Não há medo ou angustia que persista à experiência amorosa.
E esta lua tão cheia tal qual a minha esfera de amor, alerta, alerta a minha mente para a resistência que vive lá fora, dando continuidade a atitudes que não são mais próprias do que eu sou porque eu sou diferente, eu sinto agora. Agora neste instante eu sinto como sou tão crescido e no entanto tão inocente, neste momento agora eu sinto como sou tão grandioso e no entanto tão pequeno e como isso nada importa porque na experiência verdadeira do amor eu integro tudo, eu abarco o todo. Não há portas, barreiras ou muros, apenas a mente inquieta vedando o acesso aqui e ali, na minha vida mas neste instante em que me abri totalmente à esfera de amor reconheço que esta experiência é imutável, infinita e acessível em todos os momentos do que eu sou, em todos os momento que eu vivo num tempo e num espaço limitados, um tempo e um espaço limitados tal qual a pequenez da minha mente comparada à grandiosidade do meu coração.

O que a lua brilhando emana hoje da consciência cósmica é: abre-te sempre à experiência amorosa. Cada momento pequeno que vives confinado no tempo e no espaço, abre-te à experiência amorosa, cada momento em que vives gerando conflito, batalha interior, abre-te à experiência amorosa. E a experiência amorosa ensina-te que premeia cada situação da tua vida, essa pequena luz que brilha no campo de batalha está sempre em cada desafio da tua vida. Abre-te à experiência amorosa e podes no momento mais sofredor encontrar a luz que brilha, a porta à sabedoria infinita. E ao acederes à porta da sabedoria infinita recebes a bênção maior de dissolver o medo, a tensão, o desconforto, a dor, impregnando a Terra de cada raio luminoso que te chega directamente ao peito. Transformas-te a ti, transformas a própria Terra. Tu és esse amor, tu és essa força divina que te enche o peito e alimenta cada célula desse corpo pequeno e confinado, desse corpo minúsculo perante a grandiosidade daquilo que és.

Sente como o que parecia um esforço tremendo, manter o acto respiratório é agora um simples prazer de sentires entrar e sair de ti todo o ar, contendo a informação cósmica. Permite sentir agora, quando te expandes e abres à expêriência amorosa, todo o teu corpo está permeável à informação sagrada. E então não é mais a tua mente que comanda porque aos teus pés doridos chega a luz e o amor do cosmos, ao teu abdómen desconfortável chega a cura imediata, e não tens de senti-la conscientemente, não tens de percebê-la ou compreendê-la porque a luz do amor que tudo premeia, tudo atravessa e neste momento em que és a esfera luminosa, cada célula do teu corpo recebe por si cada partícula, assim como tu és uma esfera, uma mera partícula do cosmos recebendo directamente o amor divino, assim cada célula do teu corpo recebe a força sagrada que premeia todo o Universo.

Não há mais a transmitir porque cada um nesta sala, cada célula do seu corpo está em ligação directa à fonte de amor, acolhendo em si a força motriz na experiência amorosa, acolhendo em si o amor que premeia a sua vida, enchendo a sua alma do que é mais puro e inocente, a essência da vida, o AMOR.
 É só permitires que o processo continue nestes instantes e nos momentos seguintes, nos dias seguintes, meses, anos, toda a vida e as próximas, em pleno AMOR.


...


E nesta esfera em que aparento ser um mero receptáculo de luz e amor sinto como o meu corpo se transforma para se tornar numa poderosa fonte geradora desta luz inovada, sinto como ao abrir-me à experiência amorosa genuína transformo o meu corpo, expando a minha alma e torno-me numa fonte de brilho amoroso. Eu sou essa força, essa força está instalada no meu centro e é desde aí que regresso à vida, é desde aí que regresso ao tempo e ao espaço, impregnando-o deste amor renovado, transformador.
                                                                                                                         
Lua Cheia Janeiro 2012





Meditação da Lua Cheia
10 de Dezembro 2011

(ficheiro audio em breve)

Encontro com a Luz

Meditação Solstício de Verão



A chama está acesa, sente no peito. Aguarda os propósitos. «Canta o som da criação», escuta. «Celebra o nascimento da Luz. A Luz é dourada, abre os caminhos.»

Existe uma espécie de Árvore, cujas raízes nos envolvem e protegem. É a Árvore sagrada da vida. Estamos assim como filhos guardados, protegidos. E essa protecção tem sido necessária, imprescindível. No entanto ofusca a totalidade da Luz que está, que existe. É como a gruta, a caverna de Platão: o que vemos são sombras, o que temos visto são as sombras da Luz. Este encontro é o momento de assumirmos dentro de nós que o que temos visto são as luzes esbatidas que nos chegam desde o local confortável mas escondido em que nos temos colocado. Esse local não é mais útil para nós. Daí as estruturas estarem todas a abanar e a realidade que temos construído até agora estar assim num processo autodestrutivo. A destruição dos pilares é no fundo o passo que precisamos de dar para abrir caminho por entre as raízes desta árvore que nos tem assim guardado, protegido, alimentado desde a sua origem. Ela recebe a luz directa do sol, transforma em prana, energia, alimento e esse alimento chega-nos de uma forma secundária. Essa árvore está agora a terminar a sua tarefa e nós a começar a nossa tarefa de autonomia plena e completa. E a autonomia faz-se abrindo caminho por entre as raízes, os nervos da árvore, trespassando esta barreira e acedendo ao esplendor luminoso que ali está. É um momento criativo, um momento em que criamos uma existência plena, numa ligação directa, sem estrutura, sem pilares, sem árvore. Uma existência em que o Sol nos chega directamente sem qualquer película, nem mesmo a atmosfera nos faz falta. Nesta forma simbólica, os raios penetram directamente na nossa essência a partir de agora. E esses raios que penetram directamente na nossa essência são os raios que nos farão renascer, o primeiro é dourado, a cor angélica, como lhe chamamos. É no fundo o reconhecimento do sagrado em nós, de uma forma simbólica porque essa essência abarca não só a forma angélica, como a forma crística, como a forma da Mãe Divina, todas as formas, todos os deuses, todas as divindades que concebemos nestes milénios de evolução existem dentro da centelha de cada ser humano.

Esta é a mensagem do Encontro da Luz: abrir neste corpo o espaço para a manifestação divina, uma manifestação divina que não vem de fora mas do âmago da nossa existência. E então cada um recebe o raio, os raios luminosos que vêm directamente do sol criador. Imaginemos a quantidade de raios que existem pendurados assim, chegando ao interior de cada ser humano. Estamos todos ligados nesta mesma teia. Não há mais hierarquias, estamos todos em pé de igualdade, todos presentes lado a lado, bebendo, recebendo directamente a luz divina que nos é tão própria. Estamos em pleno poder de existir agora na forma física, chamada densa, com um coração tão subtil, tão amoroso, tão preenchido de tudo o que nos trouxe até aqui, no fundo. Porque somos fruto do Amor e sabemos disso. Não há tempo nem espaço na criação. Existe uma estrutura mental que nós próprios criámos para poder seguir os passos, acompanhar mentalmente. Mas o tempo é criação humana, tudo existe e ponto final. Tudo é, e esse Amor é, existe e sempre esteve no nosso coração. Acontece que as estruturas e camadas que criámos para nos sentirmos protegidos, afagados, impediram-nos de ver, assim como a alegoria da Caverna, o que víamos eram sombras, mesmo quando olhávamos o divino, olhávamos sombras. E a Espiritualidade nesta fase em que nos encontramos é uma espiritualidade despida de tudo o que são os preceitos e os preconceitos do Homem, preceitos e preconceitos que o humano criou, gerou para seguir o trilho até aqui. Agora é só sentir o coração. O coração abarca tudo quando está assim tão exposto, tão aberto recebendo e num instante preciso em que nos chega o raio solar neste coração expandido esse mesmo raio atinge os demais. Só não atinge quem está preso aos paradigmas antigos, porque não querem e existe o livre arbítrio, o livre arbítrio existe sempre.

O ser humano crescido não tem a pretensão de mudar o outro, apenas está, e esse estar faz-se abrindo-se desde o peito. Eu abro-me à Existência e então abro-me ao que é mais terreno e ao que é mais celestial porque me abro ao Todo e abarco o Tudo. E esse coração é tão grande, tão grandioso que só por si tem a utilidade precisa e perfeita. Cresço aqui, asseguro-me neste momento de que esta chama que vejo aqui fora representada pelo fogo é um puro mas mínimo reflexo da chama sagrada que existe quando me dispo de todos os padrões que adoptei até agora para me assegurar e para me permitir viver com algum controlo nesta vida e nesta sociedade. Agora dispo esta roupa, e ao despir esta roupa solto as poeiras que me pesavam nos ombros, no peito, nas costas, no ventre. E então a LYz que se reflectia no meu peito encontra a fórmula perfeita, é alquimia pura, esta alquimia faz-se porque abro o meu coração e encontro a Luz: este é o encontro com a Luz, com a luz interior, a luz do Amor!

A luz, a luz que ilumina

Ilumina o coração

Inspiro amor

Vivo a Luz

Sinto-me cheio, pleno, divino

Eu Sou o Sol interno. O sol interno sou eu e estou aqui dentro deste corpo, chamando-me. Escuta-me, vê-me. Desbravaste uma floresta, todo o espaço, abriste a clareira e agora instala a luz dentro dela. É um fogo que não queima a floresta, não destrói a pureza, apenas a ilumina para que no Céu as estrelas também a vejam e digam: ali outra irmã! Somos todos Um: planetas, estrelas, seres terrenos, extra-terrestres, tudo é UM, sem mais.

E aqui estamos bebendo desta Sabedoria! 


Aceita


Aqui no silêncio, enquanto respiro e descanso da rotina, da acção, vejo a escuridão que cresce quando me ausento do corpo, quando este actua de uma forma mecânica, desconectada da sua natureza própria, intrínseca. E então apercebo-me do desgaste, das raízes penduradas… sinto os pés doridos porque não me tenho alimentado da terra. Sinto a alma cheia quando vejo a luz que cresce constantemente, a luz que cresce ininterruptamente porque flui sem que dê conta e no entanto a outra parte de mim, quando recusa a presença dessa alma e mais além desse espírito sufoca na dor. Doem-me os pés, sinto as pernas pedindo a terra, o corpo pedindo a seiva sagrada. Tenho-me distraído com as acções do dia-a-dia, piso apenas o cimento e não piso a terra molhada… O que me enche a alma aqui é sentir o pulsar da mãe divina e nestes dias tenho-me esquecido. E quando os pés não sentem o pulsar da terra, esses mesmos pés, essas mesmas pernas pedem a elevação e assim coloco-me de pernas elevadas para o que não flui para baixo fluir para cima, descomprimir a tensão que tenho vindo a alimentar.


E depois reservo um momento de silêncio e no silêncio vejo o tubo escuro da minha existência encher-se de brilho de novo:

Tu és amada! Tu és querida sempre! Os teus passos são belos, não os julgues, não os reprimas, não te repreendas como a uma criança. Aceita a imaturidade, aceita a fricção, a fricção com o outro serve para polir a pedra, esculpir ou lapidar o tesouro máximo que existe dentro de ti. Esse tesouro é lapidado na fricção, na tensão constante. Resta-te apenas aceitá-la. Aceita que tudo é belo quando não o é, aceita que tudo é perfeito quando aparenta tanta imperfeição, aceita que és útil quando te sentes inútil, aceita que é válido quando aparenta utópico… Aceita, simplesmente aceita.

E quando aceitas os pés embrenham-se, afundam-se nesta terra tão querida, tão amada e dizes de ti para ti: Eu estou aqui, eu sou isto eu quero aqui estar. São as minhas escolhas que me fazem ocupar este lugar, ocupar esta vida, construir este lar, esta morada dentro deste corpo. Avança, partilha, cresce, caminha. Podes caminhar das diversas formas, das mais diversas e variadas formas, constrói o teu percurso. Assim como o arco-íris, esse espectro de cores que viaja lado a lado, nutrindo e presenteando a terra com o seu brilho, também tu podes fazê-lo. Quando estás cheio és completo e quando te completas podes ser o que quiseres, caminhar vários caminhos em simultâneo, todos eles te levam ao mesmo destino, à essência. Vai então, cria, constrói, alimenta a tua vida de cor. Desfruta de cada um dos trilhos, como vivem em cumplicidade e em comunhão quando tu simplesmente aceitas. Quando tu simplesmente aceitas abres espaço e tempo na tua vida para alimentá-los a todos, aceita então. Sim, tudo isso que desejas em ti, quando a vontade impera desde dentro tudo existe antes de ser criado. A manifestação é um reflexo ínfimo do que tu crias quando estás em consciência… Tu és a própria Consciência!


Meditação em noite de Lua Cheia


Começar por respirar profundo. Sinto o ar que entra, o ar que sai do meu corpo. Com o tronco erguido ou deitado vou sentir toda a linha da coluna vertebral e respiro através dela. O ar inalado desce até à base, o ar que expiro sobe desde aí até ao alto do crânio. Através desta respiração consciente, direccionada abro espaço na mente para além das imagens da minha rotina diária, da minha vida, do meu passado ou do meu futuro. Começo o trabalho meditativo pelo encontro no Aqui e no Agora. Vou aprofundar ao máximo a consciência do presente e faço-o inalando até à base, expirando até ao crânio.


Gradualmente, as imagens que se sucedem são mais espaçadas assim como o ritmo respiratório. Então encontro-me nos intervalos entre a inalação e a expiração, entre a expiração e a inspiração, sem forçar, apenas sensibilizar-me para a existência do momento preciso em que deixo de inspirar e começo a expirar, no momento preciso em que deixo de expirar e preparo-me para inspirar. Quero que a respiração flua tão espontânea. Esse momento preciso de pausa sintoniza-se ao momento preciso em que deixo de pensar, em que os estímulos exteriores, os reflexos do quotidiano cessam por completo. E esse é um momento ínfimo mas um momento único em que tudo simplesmente pára, em que tudo simplesmente descansa. Disponibilizo-me a sentir.

E quanto mais me abro a sentir, quanto mais aceito o fluxo respiratório, o fluxo de pensamentos mais esse instante se prolonga porque estou na entrega total, aceitando todas as circunstâncias da minha vida, neste momento, no aqui, no agora, neste instante em que tudo se dissolve porque eu aceito, me abro à experiência maior. E no entanto aqui e ali a minha humanidade chama-me, a minha razão alerta-me para os desconcertos, para as tensões, para os medos e para as angústias e então, simplesmente aceito. Aceito que estou aqui disponível, aberto e receptivo. Estou aqui receptivo à escuta e é uma escuta interna, as palavras que soam do exterior servem apenas de adorno porque eu vim até aqui, eu disponibilizei-me ao silêncio, à entrega a mim mesmo. E então aproveito a energia desta noite mágica em que a luz brilha no céu numa lua imensa, disponibilizo-me a aclarar com este foco toda a turbulência que existe escondida no meu interior. E aceito. O ar flui e a pausa torna-se cada vez maior. Em cada momento que estou em pausa sinto-me mais cheio, mais brilhante mais luminoso. Em cada momento, em cada instante de pausa aproximo-me da Lua vibrante, aproximo-me da minha consciência profunda. E o pensamento humano cessa por fracções de segundos, por fracções de segundos que se prolongam porque o tempo e o espaço também eles são limitados e limitantes. E existe uma pausa entre um segundo e o outro, entre um lugar e o outro. Numa casa entre uma sala e a outra existe a porta; num dia, entre o dia e a noite existe um espaço, e é nesse interregno que sobrevive toda a Existência. Então alimento-me do umbral da porta, alimento-me do crepúsculo, da aurora, alimento-me da pausa em que tudo se silencia, tudo se serena e eu simplesmente estou, aberto e disponível.

E aproximo-me da Lua brilhante. Quanto mais me aproximo da lua mais chego perto do sol, e o sol chama porque no seu fogo tem o espaço, o tempo, o intervalo entre o espaço e o tempo e aí reconheço a minha própria centelha, a minha própria chama interna. Coloco-me receptivo à sensibilidade, à escuta, ao silêncio e ao que ressoa no silêncio, à palavra e ao som que chega a mim.